A santidade é, frequentemente, um dos
conceitos mais incompreendidos no ambiente eclesiástico contemporâneo. Para
muitos, isso evoca imagens de um isolamento austero ou um legalismo rigoroso
que sepulta a alegria da vida cristã. Porém, a Bíblia apresenta a
santidade não como fardo, mas como o mais elevado chamado divino aos homens:
"Sede santos, porque eu sou santo". Esse chamado não é um
convite à perfeição instantânea, mas para um movimento dinâmico de separação
para Deus e transformação à imagem de Cristo. A maturidade cristã não é
medida pelo tempo de conversão, mas pela profundidade da nossa conformação ao
caráter de Jesus. Para que essa caminhada deixe de ser um ideal abstrato
e se torne uma realidade vivível, é necessário que tenhamos um entendimento dos
passos práticos que sustentam o nosso caminhar diário com o Espírito.
A vida de santidade não é um produto do
esforço humano solitário e desgastante, mas da colaboração da vontade humana
com a graça soberana de Deus. Os cinco pilares listados abaixo, considero, são
essenciais para a nutrição da maturidade espiritual.
Viver de acordo com sua nova
natureza — O apóstolo Paulo, em Gálatas 5.16-17, descreve a tensão
intrínseca da vida cristã: disputa entre a carne e o Espírito. Santidade
começa com a consciência de que, em Cristo, recebemos uma nova natureza. Não
somos mais escravos dos nossos impulsos pecaminosos, embora eles ainda tentem
nos seduzir. Viver conforme a nova natureza significa "andar no
Espírito", o que implica em uma dependência contínua da orientação e do
poder de Deus. Quando escolhemos alimentar o Espírito por meio da oração, da
Palavra e da obediência, a força da carne é subjugada. A maturidade surge
quando aprendemos a não ceder aos desejos da natureza decaída, reconhecendo que
nossa identidade agora está firmada em Cristo e não em nossas inclinações passadas.
Não desprezar a bondade de Deus. Muitas vezes, tentamos buscar a
santidade motivados pelo medo da punição. Todavia, Romanos 2.4 nos ensina que é
a bondade de Deus que nos conduz ao arrependimento. Desprezar essa bondade é
ignorar a paciência e a tolerância divina que nos dão espaço para a mudança. A
verdadeira santidade brota num coração que se sente amado e seguro na graça.
Quando agora você entender que Deus é bom e que seus mandamentos são para o
nosso bem, o arrependimento deixa de ser um fardo e passa a ser uma resposta de
gratidão. A maturidade cristã consiste em ver cada evidência da bondade de Deus
como uma motivação para abandonar o pecado e viver em honra para com o Pai.
"O evangelho não é apenas o que nos
salva inicialmente; é também o que nos santifica continuamente. A santidade não
é o caminho para o amor de Deus, mas o resultado de sermos amados por
Ele." — Timothy Keller
Fazer confissão de pecados: A honestidade com Deus é um pré-requisito
para avançar rumo ao crescimento espiritual. 1 João 1.9 apresenta uma gloriosa
promessa: se nós confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos
perdoar e nos purificar. A confissão não informa a Deus algo que Ele não
saiba; antes, é o ato de concordarmos com Ele sobre a gravidade de nossas
falhas. O pecado oculto é um veneno para a alma e um obstáculo para a
santidade. O cristão maduro não é aquele que nunca erra, mas aquele que é
rápido em confessar e abandonar o erro. Ao trazermos nossas fraquezas para a
luz, quebramos o poder do inimigo e permitimos que a purificação divina
restaure nossa comunhão plena com o corpo de Cristo.
Apropriar-se do perdão de Deus: tão importante quanto confessar é a
capacidade de receber o perdão. Muitos cristãos vivem paralisados pela culpa de
pecados já confessados, o que impede o progresso na santificação. O Salmo
103.12 declara que Deus afasta de nós as nossas transgressões "quanto o
Oriente está longe do Ocidente". Receber o perdão é um ato de fé e
humildade; é aceitar que o sacrifício de Jesus foi suficiente. A maturidade
exige que deixemos de nos punir por aquilo que Deus já perdoou. Quando descansamos
na realidade do perdão total, ganhamos fôlego espiritual para prosseguir em
direção ao alvo, sem o peso morto de um passado que já foi sepultado na cruz.
Abraçar a graça - Por fim, a santidade é educada pela
graça. Em Tito 2.11-12, lemos que a graça de Deus se manifestou
"ensinando-nos" a renunciar à impiedade e a viver de forma sensata,
justa e piedosa. A graça não é uma licença para o pecado, mas o combustível
para a retidão. Ela nos capacita a dizer "não" ao que nos afasta de
Deus e "sim" ao que nos aproxima d'Ele. Abraçar a graça significa
entender que a santificação é um processo de "dentro para fora", onde
o Espírito Santo transforma nossos afetos e desejos. O cristão que abraça a
graça não vive sob o chicote da lei, mas sob o suave jugo de Cristo,
encontrando prazer na vontade de Deus.
"A santidade não é uma opção para o
cristão, nem é uma conquista de sua própria vontade. É a beleza de Jesus Cristo
sendo formada em nós pelo poder do Espírito Santo através da união com
Ele." — Sinclair Ferguson
Desenvolver uma vida de santidade é uma
jornada de fôlego longo, marcada por altos e baixos, mas sustentada pela
fidelidade inabalável de Deus. A maturidade cristã não reside na
autossuficiência, mas na crescente percepção de nossa total dependência do Senhor.
Ao vivermos conforme nossa nova natureza, respondermos à bondade divina,
praticarmos a confissão honesta, descansarmos no perdão e nos deixarmos educar
pela graça, permitimos que a luz de Cristo brilhe através de nós de forma cada
vez mais nítida. Que possamos encarar a santidade não como uma meta distante,
mas como o ritmo diário de um coração que, tendo sido alcançado pela graça,
anseia por agradar Àquele que o chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz.
Rev. Liberato Pereira dos Santos






