Ep 6.10-18
A vida cristã não é um passeio no parque
de diversão; está mais para uma campanha militar. O apóstolo Paulo, ao encerrar
sua carta aos Efésios, não despede a igreja com palavras de conforto
superficial, mas com um alerta estratégico de guerra: "Revesti-vos de toda
a armadura de Deus" (v. 11). O cristão é, por vocação, um soldado. Como
todo soldado precisa de armadura, porém não é qualquer armadura, mas aquela
forjada pelo próprio Deus.
O inimigo não é quem você pensa.
Antes de vestir a armadura, é importante
saber contra quem se luta. Paulo é incisivo: "não é contra sangue e carne
que temos que lutar" (v. 12). O verdadeiro inimigo não é o perseguidor, o
crítico ou o injusto. É o adversário das nossas almas, Satanás e suas hostes
espirituais. Essa distinção é libertadora. Quando entendemos que toda oposição
humana tem origem espiritual, o rancor perde espaço e o amor ensinado por
Cristo ganha terreno. Como lembra o reformador João Calvino, em seus comentários
a Efésios, o Diabo não ataca de frente com espadas visíveis, mas com ciladas e
enganos que constroem fortalezas na mente do crente negligente.
O cinto da verdade e a couraça da
justiça.
A primeira peça da armadura é o cinto da
verdade. No soldado romano, o cinto sustentava o restante do equipamento. Sem
verdade, tudo se afrouxa. A aletheia grega de Paulo não é mero conceito
intelectual, é verdade moral, religiosa, que deve permear fé, palavras e
conduta. Aquela “mentira branda” que parece tão inocente é um dos mensageiros
do Diabo, destinado a perturbar a comunhão na igreja de Cristo. Em seguida vem
a couraça da justiça, protegendo o coração e os órgãos vitais. Não se trata de
justiça própria, mas daquela integridade que procede de Deus e se reflete numa
vida reta, mesmo sob pressão. Jó é o exemplo clássico: mesmo no dia pior, não
renunciou à sua integridade.
Os pés calçados com a paz do evangelho
O soldado de Cristo não avança descalço.
Os calçados do evangelho da paz dão firmeza em terreno hostil. A paz bíblica
não é ausência de conflito, mas segurança interior que nasce da reconciliação
com Deus mediante Cristo. Mesmo no caos, o cristão mantém-se firme porque sua
paz não depende das circunstâncias, mas do soberano controle de Deus sobre
todas as coisas. Se quisermos ficar firmes e de pé na luta, precisamos estar
calçados com o Evangelho, que nos dá paz com Deus e com o próximo. Necessitamos
de pés velozes para anunciar o evangelho da paz aos perdidos (Is 52.7). O diabo
declara guerra para destruir os homens, mas nós somos embaixadores do evangelho
da paz (2Co 5.18-20).
O escudo da fé e o capacete da salvação.
Paulo descreve o escudo como grande e
capaz de cobrir todo o corpo. A pistis, fé salvífica, não mero otimismo.
Ela extingue os dardos inflamados do Maligno. Essa fé é a convicção de que Deus
existe, governa tudo e nos salvou em Cristo. O nosso adversário lança dardos de
fogo em nosso coração e mente: mentiras, pensamentos blasfemos e de vingança,
dúvidas e ardentes desejos de pecar. Se não apagarmos esses dardos pela fé,
eles acendem fogo em nosso interior e nós desobedecemos a Deus. Já o capacete
da salvação protege a parte mais vulnerável: a mente. O Diabo sabe que quem
domina o pensamento domina a vida. A soterion, a esperança certa da
salvação, guarda a mente contra confusão, dúvida e desespero.
A espada do Espírito e a oração.
A única arma que tem dupla função na
armadura é a espada do Espírito, que pode ser usada para se defender e atacar.
Ela é a Palavra de Deus. Cristo, no deserto, demonstrou como utilizá-la: cada
tentação foi respondida com "está escrito". Conhecer as Escrituras
não é opcional, é questão de sobrevivência. O cristão que está firmado na
Palavra de Deus não cede às propostas sedutoras do diabo facilmente. A Bíblia
nos afasta do pecado ou o pecado nos afasta da Bíblia. Infelizmente, há
cristãos mais comprometidos com as redes sociais do que com a Palavra bendita
de Deus.
E,
sobre tudo isso, Paulo adiciona a oração, como o fôlego que mantém o soldado em
comunhão com seu General.
A armadura não vem automaticamente.
Paulo usa imperativos: revesti-vos, tomai. Há uma decisão ativa envolvida. Como
bem observa Martyn Lloyd-Jones em seu comentário a Efésios 6, o cristão que não
se reveste deliberadamente da armadura de Deus, dia após dia, estará nu no
campo de batalha, é um soldado desprotegido, uma presa vulnerável. Que cada dia
possamos nos vestir completamente, não parcialmente, da armadura que Deus
proveu, permanecendo firmes não por nossa força, mas pelo poder dAquele que já
venceu a batalha definitiva na cruz.
Rev. Liberato Pereira dos Santos






