João 4:35
A Igreja de Jesus Cristo foi instituída
com um propósito claro e inegociável: glorificar a Deus mediante a proclamação
do Seu Evangelho a toda criatura. Não obstante, a história demonstra que, com
frequência, o povo de Deus sucumbe à mesma miopia espiritual que acometeu os
discípulos no poço de Jacó, quando se preocuparam com comida, enquanto Cristo
contemplava uma colheita de almas. O Mestre os advertiu: era necessário
levantar os olhos.
John Piper, em sua obra Let the
Nations Be Glad! *, declara com precisão que "missões não é o objetivo
final da Igreja. A adoração é. Missões existem porque a adoração não
existe." Essa afirmação captura o cerne da visão missionária: a igreja
não evangeliza por compulsão humanitária, mas porque há povos e nações que
ainda não renderam a Deus a glória devida ao Seu nome. A urgência missionária
nasce da constatação de que multidões perecem sem conhecer Aquele que é o único
caminho ao Pai (João 14:6). A cada 2,6 segundos, uma alma parte para a
eternidade sem esperança em Cristo. A fila dos perdidos, se colocada em linha,
circundaria a Terra trinta vezes e cresce vinte milhas por dia.
A igreja do primeiro século compreendeu
essa chamada. Mesmo sob perseguição implacável, os cristãos se dispersaram por
toda parte, pregando a Palavra com fervor (Atos 8:1-4). Não eram apenas os
apóstolos nem os presbíteros; era a congregação inteira, movida por
comprometimento, amor a Cristo e convicção de que o Evangelho é o poder de Deus
para salvação de todo aquele que crê. Em aproximadamente três décadas, a
mensagem alcançou o mundo conhecido (Colossenses 1:6, 23). A pergunta que se
impõe é: se aqueles irmãos, com recursos tão limitados, lograram tal façanha, o
que nos impede hoje?
Nossas oportunidades são infinitamente
superiores. Dispomos de meios de transporte e comunicação que os primeiros
cristãos sequer poderiam imaginar. Gozamos de liberdades sociais e políticas.
Somos abençoados com recursos materiais e educacionais. Contudo, o problema não
é a falta de recursos nem a ausência de capacitação. O problema é que, como
indivíduos e como congregação, simplesmente não levantamos os olhos. Ficamos
presos ao material, apegados a coisas insignificantes, e não percebemos o que
deve e pode ser feito. Conhecer a verdade não basta — é preciso obedecê-la e
aplicá-la.
John MacArthur, ao tratar da natureza da
Igreja, assevera: "A Igreja não existe para entreter os salvos, mas
para evangelizar os perdidos e edificar os santos para a obra do
ministério." Em uma era em que muitas congregações substituíram a
proclamação do Evangelho por entretenimento e programas voltados ao conforto
interno, essa constatação soa como um alerta profético. Uma igreja sem visão
missionária é uma igreja que perdeu sua identidade.
Uma
igreja com visão missionária é, antes de tudo, uma igreja que cultiva um
coração para Deus. Esse coração se manifesta em três desejos interligados:
conhecer a Deus de forma cada vez mais pessoal, obedecer-Lhe em todas as áreas
da vida e compartilhar dEle com os que ainda não O conhecem. Cristo não chamou
seguidores de uma fé privada; ordenou: "Ide por todo o mundo e pregai o
evangelho a toda criatura" (Marcos 16:15).
Além disso, uma igreja verdadeiramente
missionária possui características concretas. Ela tem visão para o mundo, não
apenas para sua própria cidade. Responde obedientemente, enviando missionários.
Proclama com clareza a mensagem redentora de Cristo. Desafia os chamados por
Deus a irem aos campos. E sustenta generosamente aqueles que são enviados. O
plano de Deus repousa em três pilares: a pessoa de Jesus Cristo — o único que
ofereceu Sua vida como expiação substitutiva pelos pecadores; o poder do Espírito
Santo — que habita nos crentes e os capacita para a missão; e o programa divino
— que deseja que nenhum lugar permaneça sem evangelizar.
Os princípios da colheita ensinados por
Jesus em Sicar permanecem válidos. É preciso estar disposto a romper tradições
que aprisionam o Evangelho. É necessário estar aberto à operação do Espírito
Santo. É indispensável ter visão, pois "sem profecia, o povo se
corrompe" (Provérbios 29:18). E é preciso reconhecer que agora é a hora —
não amanhã, não em quatro meses, mas agora.
O plano de Deus está em movimento. Em
todo o mundo, pessoas estão sendo salvas, igrejas implantadas e missionários
enviados. Cada crente tem um papel essencial: ir como missionário, contribuir
para o sustento dos enviados ou orar sem cessar pela obra e pelos obreiros. Que
a Igreja levante os olhos, contemple os campos brancos para a ceifa e avance
com a urgência que o tempo exige. Pois, como bem lembra Piper, quando
finalmente todos os povos adorarem a Deus, missões terão cumprido seu propósito
e deixarão de existir, mas a adoração permanecerá para sempre.
Rev. Liberato Pereira dos Santos






