O discipulado cristão não começa com uma
decisão humana, mas com um chamado soberano. Quando Jesus disse a Levi:
"Segue-me!" (Mc 2.14), não apresentou um programa de vida, um ideal
religioso ou um código ético. Apresentou a si mesmo. E a resposta do publicano
não foi uma confissão teológica elaborada, mas um ato imediato de obediência:
levantou-se e seguiu-o. Essa sequência, chamado e obediência, é o núcleo do
discipulado autêntico.
O chamado ao discipulado é
exclusivamente comprometimento com a pessoa de Jesus Cristo. Não há outro
conteúdo, outro objetivo ou outra causa que legitime o abandono de tudo. Pedro
não deixou as redes por um projeto missionário; Levi abandonou a coletoria não
por uma doutrina superior. Ambos o fizeram porque Cristo chamou. O próprio
Jesus é o único conteúdo do discipulado, e isso subverte todo programa humano,
todo idealismo religioso e todo legalismo.
Bonhoeffer, afirma: o chamado é graça e
mandamento simultaneamente. Não se trata de sinergia, de cooperação entre a
vontade divina e a humana. Cristo chama com autoridade incondicional, e o
discípulo obedece. Essa obediência não é fruto de preparação psicológica ou
conhecimento prévio de Jesus. O texto de Marcos permanece intencionalmente mudo
sobre se Levi já conhecia o Senhor. O que importa é que o chamado parte de
Cristo, e somente dele.
Algo que merece a nossa atenção é
relação entre fé e obediência, no discipulado. Não basta dizer que "só o
crente é obediente". É preciso acrescentar: "só o obediente é que
crê". A fé não existe sem o ato de obediência; ela se realiza no obedecer.
O primeiro passo de obediência é abandonar as redes, sair do barco, deixar a
coletoria, não é uma obra meritória, mas cria a situação em que a fé se torna
possível.
Pedro não podia crer andando sobre as
águas se primeiro não saísse do barco por obediência à palavra de Cristo. O
primeiro passo, por si só, é obra morta da lei; mas dado em resposta ao chamado
de Jesus, torna-se ato de fé. Quem se recusa a dar esse passo, alegando falta
de fé, engana-se a si mesmo. A verdade é que o desobediente não pode crer. A
"graça barata". aquele conforto espiritual que administra perdão a si
mesmo sem exigir obediência, é, na
realidade, descrença mascarada.
Em Lucas 9.56-62 encontramos três
respostas humanas ao chamado. O primeiro se oferece espontaneamente, mas Jesus
o desencoraja: quem não conhece o custo do discipulado não pode assumi-lo por
vontade própria. O segundo é impedido pela lei, quer sepultar o pai primeiro.
Jesus responde com uma dureza que só o Filho de Deus pode ter: "Deixa aos
mortos o sepultar os seus próprios mortos." Nem mesmo o mandamento mais
sagrado pode se interpor entre Cristo e o chamado. O terceiro impõe condições:
"Deixa-me primeiro..." E Jesus retruca que quem olha para trás não é
apto para o Reino.
O perigo do terceiro discípulo é o mais
sutil. Transformar o discipulado em um projeto de vida auto escolhido, com
condições prévias, é destruí-lo. O mesmo ocorre com o jovem rico (Mt 19.16-22).
Ele buscava um acréscimo à sua vida religiosa, algo além dos mandamentos. Mas
Jesus não oferece complementos. Oferece a si mesmo: "Vem, e
segue-me." O jovem queria discutir; Jesus exigia obediência. A fuga para o
"conflito ético", "quem é o meu próximo?", "que me
falta ainda?" É, como Bonhoeffer não hesita em afirmar, estratégia
satânica para evitar o mandamento simples.
O chamado ao discipulado não é convite
para uma vida mais religiosa. É o chamado da graça soberana que cria obediência
onde antes havia rebelião. Exige abandono de toda segurança humana, ruptura com
a existência anterior e compromisso exclusivo com Cristo. Não admite condições,
adiamentos ou interpretações ambíguas. O discípulo não segue um ideal; segue
uma Pessoa. E nessa obediência, a fé nasce e se sustenta, não como autoilusão
piedosa, mas como confiança viva no Senhor que chama.
Rev. Liberato Pereira dos Santos






