Há cinco séculos, Martinho Lutero afixou na porta da
catedral de Wittenberg as noventa e cinco teses que questionavam a venda de
indulgências. Ele não desejava criar uma nova denominação, mas sim corrigir os
erros existentes na igreja. O que ensejou de um debate acadêmico transformou-se
no maior movimento de renovação espiritual da história cristã. Lutero na
Alemanha, Zwínglio em Zurique, Calvino em Genebra e Knox na Escócia restituíram
ao povo de Deus a Palavra, a fé e a esperança. Cinco séculos depois, aquele ato
de coragem continua atual; a Reforma não é um evento para ser comemorado, mas
um princípio para ser perpetuado. Uma igreja que se reformou, sempre em reforma
segundo a Palavra de Deus.
O movimento reformista se baseou em princípios bem
definidos, resumidos nos cinco solas: Sola Scriptura: a Escritura é a
única regra infalível de fé e prática, superior à tradição e aos decretos
humanos. Sola Fide: o pecador é declarado justo perante Deus unicamente pela
fé, sem qualquer obra que mereça recompensa. Sola Gratia: a salvação é um dom
imerecido de graça, do começo ao fim, um presente de Deus, não uma recompensa.
Solus Christus: Cristo é o único mediador entre Deus e a humanidade, e sua
obra final na cruz não permite complementos. Soli Deo Gloria: toda a
existência, a adoração, o labor e o repouso têm como propósito a glória de
Deus, e não do ser humano.
Além das solas, os reformadores recuperaram as marcas
da verdadeira igreja: pregação fiel da Palavra, correta administração dos
sacramentos e exercício da disciplina. Calvino, na Instituição da Religião
Cristã, demonstrou que a igreja não é um clube de afinidades, mas a
comunidade governada por Cristo por meio de sua Palavra. Esses princípios foram
cristalizados nas grandes confissões reformadas: Heidelberg, Westminster, Dort,
que ainda hoje disciplinam igrejas fiéis ao redor do mundo. Da teologia da cruz
de Lutero à ênfase de Knox na soberania divina, o centro era sempre o mesmo:
Deus em primeiro lugar, e o homem diante dele como pecador salvo por graça.
O problema é que a igreja contemporânea raramente nega
esses pilares de modo formal; na prática, porém, os substitui por princípios
estranhos ao evangelho. O afastamento não acontece por decretos, mas por erosão
silenciosa.
Primeiro, da Sola Scriptura ao pragmatismo.
Muitos púlpitos trocaram a exposição da Palavra por conselhos motivacionais e a
doutrina por experiências. David Wells, em "Deus na Madrugada",
diagnosticou o mal: a igreja se conformou ao espírito da era, buscando
"relevância" ao preço de perder a identidade. Quando a Bíblia deixa
de julgar a cultura e passa a ser julgada por ela, cometemos o mesmo erro de
Roma, apenas trocando a autoridade: da tradição pela moda.
Segundo, da Sola Fide ao moralismo. O evangelho
da graça foi reduzido a fórmulas de autoajuda e listas de atitudes louváveis.
Prega-se "como ser melhor" em vez de anunciar "está
consumado". Michael Horton, em *Christless Christianity*, adverte:
uma mensagem que funcionaria sem o Cristo histórico não é o evangelho, mas é
religião natural batizada em vocabulário cristão.
Terceiro, do Solus Christus ao evangelho da
prosperidade. O esquema inverte as solas: transforma a fé em investimento, a
dádiva em transação e Deus em meio para ambições materiais. É a venda de
indulgências em versão moderna, trocar a graça por negociação, o altar pelo
balcão.
Quarto, do Soli Deo Gloria ao culto como
espetáculo. Quando a liturgia busca entreter e a experiência do frequentador
dita a ordem do culto, o centro desloca-se de Deus para o consumidor. A igreja
vira mercado; o pastor, empresário; o fiel, cliente. Adorar deixa de ser
resposta à revelação divina e passa a ser consumo de um produto religioso.
A resposta não é nostalgia, mas fidelidade. A nova
reforma que a igreja precisa não exige inovação; exige retorno à exposição
séria e contínua das Escrituras, ao evangelho da justificação pela fé, à
teologia centrada em Cristo e ao culto ordenado que glorifica a Deus. Charles
Spurgeon advertiu que, sem a doutrina da graça, não há estrada para peregrinos,
apenas atalhos que terminam no abismo. E R.C. Sproul recorda: somos chamados a
ser reformados não porque a tradição do século XVI seja boa, mas porque a
Escritura é a Palavra viva de Deus. Reforma não é um capítulo da história; é
disciplina permanente do povo que deseja ouvir a Deus mais do que a si mesmo.
A Reforma começou com um homem que, diante das
autoridades, disse: "aqui estou, não posso fazer de outro modo". A
nova reforma começa do mesmo modo: pastores que voltam a pregar o texto,
igrejas que voltam a ouvir, crentes que voltam à fonte. Se a igreja foi
reformada, que se reforme sempre, pois o Deus que falou em Wittenberg continua
falando por sua Palavra. Soli Deo Gloria.






