Salmo 23.3O
Salmo 23 ajudou-me a bloquear a minha
tendência ao antropocentrismo — esse foco no homem que reduz tudo ao nível
terreno, onde Deus parece estranhamente irrelevante. Esse bloqueio foi a
mensagem de que Deus me guia na vereda do amor, e faz isso por amor do Seu
nome. Deus é o princípio e o fim de toda a minha justiça. A vereda da justiça
tem a graça dEle como ponto de partida, pois Ele me guia nela. Como bem afirmou
Paulo: "Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas; a
ele, pois, a glória eternamente."
Assim, o pensamento de que o homem é a
medida de todas as coisas foi bloqueado de uma vez por todas. Agora vivo com
uma consciência de que Deus está presente; um senso da realidade do Seu poder
na vida diária que cresceu; uma confiança na convicção de que a honra de Deus
está em jogo na maneira como Ele está guiando minha vida; e orações mais
fervorosas por minha própria santificação, porque tenho um forte argumento para
apresentar-Lhe: "Santifica-me, ó Deus, por amor do teu nome; não me deixes
cair em tentação, mas livra-me do mal, por amor do teu nome." Essas são
algumas das verdades preciosas que me moldaram quando medito sobre Deus, o
pastor, neste salmo.
Mas o salmo não termina no pastor. No
versículo 5, vemos Deus, o anfitrião. Ele prepara um banquete para o Seu
convidado, unge sua cabeça com óleo festivo (cf. Lc 7:46) e mantém seu cálice
cheio até a borda. Os inimigos são mantidos à distância — incapazes de
interferir na segurança dos convidados — ou assistem, pesarosos, enquanto o
povo de Deus celebra a vitória. Contudo, não devemos isolar este versículo e
fazê-lo a norma para toda a vida. Não é por acaso que o salmo começa em pastos
verdejantes e termina na casa de Deus, mas no meio está o vale escuro da sombra
da morte. O ponto não é que a vida seja uma grande festa, mas que existem esses
momentos festivos que devemos reconhecer como presentes de Deus e sinais de Sua
intenção final para nós.
No versículo 6, Davi chega a uma
conclusão após atravessar os pastos, o vale e o salão de banquetes: a bondade e
a misericórdia de Deus o seguirão todos os dias de sua vida. Mas a palavra
"seguir" em português obscurece uma imagem belíssima. Ela pode
significar vir atrás e nunca alcançar, o que não seria muito consolador. A
palavra hebraica é muito mais ativa. Quase sempre significa perseguir,
frequentemente no sentido de ir atrás para alcançar.
Gosto muito da analogia que John Piper
faz para explicar essa passagem: Imagine-se dirigindo despreocupado pela
autoestrada, quando vê uma luz vermelha piscando no retrovisor. Por algum
motivo insano, você pisa no acelerador em vez do freio. A 160 km/h, você tenta
fugir da patrulha rodoviária. Cada vez que ultrapassou o limite de velocidade
passa diante dos seus olhos. À medida que a culpa aumenta, todas as falhas da
sua vida emergem do inconsciente. O tempo todo você se lembra de que mais uma
multa significa carteira cassada. Mas seu carro não tem a potência da viatura.
Ele o obriga a encostar. Você treme enquanto o policial caminha até a janela e
diz: "Com a consciência pesada aí, não é?" Então ele tira uma
carteira do bolso: "Aquele hotel de onde você acabou de sair me pediu para
alcançá-lo e trazer a carteira que você deixou no balcão." Você se sente
um completo idiota. E quando estende a mão para pegá-la, ele diz: "Ah, e
tem mais uma coisa. Fizeram um sorteio esta manhã para a promoção em que você
se inscreveu ontem à noite. Você ganhou uma viagem grátis para dois para
Miami."
Deus não é apenas o bom pastor, nem
apenas o anfitrião generoso. Ele é também um patrulheiro que nos persegue com
bondade e misericórdia todos os dias da nossa vida, e Ele é rápido.
E quando você respira aliviado, Ele diz:
"Você está preso agora. Terá de vir comigo." Você entra na viatura e
Ele parte, sem dizer para onde. Logo você percebe que não está indo para o
fórum, mas para o campo. Ele entra numa propriedade magnífica por um portão
enorme, dirige sob carvalhos bicentenários até uma belíssima mansão antiga.
Você pergunta: "Onde nós estamos?" E Ele diz: "Este é o meu
lugar, e eu gostaria que você morasse comigo. Aquele é o seu bangalô ali perto
do rio, entre os chorões. É de graça. Vou buscar sua esposa e sua família.
"E habitarei na casa do Senhor para
todo o sempre." O
problema dessa analogia é que ela se concentra demais na casa e nos terrenos.
Mas o grande amor de Davi é pelo próprio Senhor, não pelo que o Senhor pode
dar. Como ele diz no Salmo 27:4: "Uma coisa pedi ao Senhor e a
buscarei: que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida, para
contemplar a beleza do Senhor."
Todo o salmo me leva ao próprio Deus
como o cumprimento de todos os meus anseios. Não amo os pastos verdejantes, mas
o bom pastor. Não o banquete generoso, mas o anfitrião generoso. Não a viagem
para Miami ou o bangalô, mas o patrulheiro que me perseguiu com graça, por amor
do Seu nome.
Rev. Liberato Pereira dos Santos

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