Ao ler um texto do Rev. Augustus
Nicodemos, considerando-o muito relevante para o momento em que vivemos,
resolvi transcrevê-lo, com algumas adaptações.
A política se tornou, para muita gente,
mais do que uma preferência eleitoral; tornou-se identidade, tribo, religião
substituta. Nas redes sociais, essa transformação aparece com clareza: alguém
publica um vídeo curto, outro recorta uma frase, um terceiro transforma tudo em
meme e, em poucos minutos, uma multidão já decidiu quem é o vilão e quem é o
salvador da pátria. Em grupos de WhatsApp, famílias inteiras se dividem porque
alguém encaminhou uma notícia sem verificar. No Instagram e no X, cristãos que
cantam os mesmos hinos no domingo se tratam como inimigos durante a semana. O
problema não é apenas político; é espiritual.
O cristão não é chamado a ser pessoa sem
opinião. A Bíblia não nos transforma em gente neutra diante do bem e do mal; há
temas sobre os quais o crente deve pensar, falar e agir com convicção. O
problema começa quando a convicção deixa de ser serva da verdade e se torna
combustível do orgulho. Quando isso acontece, já não queremos esclarecer,
queremos derrotar; já não desejamos persuadir, queremos humilhar. Deixamos de
enxergar o outro como pessoa criada à imagem de Deus e passamos a vê-lo como
representante de uma ideologia que odiamos. Mas Cristo não nos chamou para
sermos capangas de causas; chamou-nos para sermos embaixadores da reconciliação
(2Co 5.20).
Nas redes, o sarcasmo virou prova de
inteligência. Compartilha-se o vídeo que ridiculariza o "outro lado"
e respira-se orgulho moral. O algoritmo recompensa essa postura, porque
indignação gera engajamento: quanto mais agressivo o conteúdo, mais
comentários; quanto mais humilhante a montagem, mais compartilhamentos. A
teologia bíblica nos lembra uma verdade desconfortável: a depravação total não
ficou no passado; ela migra para os smartphones e treina a alma para reagir
antes de pensar, falar antes de ouvir e atacar antes de amar.
O evangelho segue na direção oposta.
Cristo ensina que não basta amar quem nos ama; isso qualquer pecador consegue
fazer. A marca do discípulo aparece quando ele trata com mansidão quem o
provoca, responde com verdade sem perder a caridade e se recusa a pecar, mesmo
tendo razão em determinado ponto. É possível defender uma causa justa com
espírito injusto; estar certo no conteúdo e errado na postura; denunciar o erro
alheio enquanto nutrimos, dentro de nós, a soberba, a ira e o desprezo.
Calvino, nas Institutas, lembra que negar a si mesmo é consagrar todo o nosso
ser, inclusive os polegares que tocam a tela, ao serviço de Deus e ao bem do
próximo.
Um exemplo comum: o cristão que publica
"Deus acima de tudo" e, logo em seguida, compartilha ofensas, boatos
e acusações não verificadas. Há aí uma incoerência grave. Deus não está acima
de tudo quando a minha raiva está prevalecendo sobre a verdade; Deus não está
acima de tudo quando meu partido, meu influenciador preferido ou minha bolha
ideológica determinam como devo tratar o próximo. A fidelidade cristã exige que
submetamos ao senhorio de Cristo não apenas as nossas ideias, mas também os nossos
afetos, as nossas palavras, os nossos cliques e os nossos compartilhamentos. É
importante ressaltar que tal prática não se limita apenas ao campo político,
mas a todas as vezes em que utilizamos nossas redes sociais para divulgar fatos
inverídicos sobre outras pessoas.
Amar quando é árduo não significa
concordar com tudo. Não significa chamar mentira de verdade, pecado de virtude
ou injustiça de opinião respeitável. Amar é buscar, diante de Deus, o bem do
outro. Às vezes isso incluirá confrontar; às vezes exigirá silêncio; às vezes
pedirá paciência para ouvir alguém confuso, ferido ou enganado. O amor cristão
não é sentimentalismo fraco; é obediência robusta. Ele nasce da consciência de
que nós mesmos fomos amados por Cristo quando éramos inimigos de Deus (Rm
5.8,10). Quem recebeu tamanha misericórdia não tem o direito de tratar o
próximo como lixo ideológico.
Tim Keller costumava dizer que a
idolatria é pegar algo bom e transformá-lo em ultimato. A política é boa; como
ultimato, vira deusa devoradora. O mundo reconhecerá que somos discípulos de
Jesus não pela ferocidade dos nossos argumentos, mas pelo modo como amamos,
inclusive nos pontos em que divergimos (Jo 13.35). Que a graça que nos alcançou
nos ensine, também nas redes e na política, a praticar o amor nas diferenças:
com convicção firme, língua mansa e coração quebrantado.
Rev. Liberato Pereira dos Santos (Adaptado)

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