sábado, 17 de outubro de 2026

PRATICAR O AMOR NAS DIFERENÇAS – ÉTICA NA POLÍTICA 18.10.2026

+ No comment yet

 



Ao ler um texto do Rev. Augustus Nicodemos, considerando-o muito relevante para o momento em que vivemos, resolvi transcrevê-lo, com algumas adaptações.

A política se tornou, para muita gente, mais do que uma preferência eleitoral; tornou-se identidade, tribo, religião substituta. Nas redes sociais, essa transformação aparece com clareza: alguém publica um vídeo curto, outro recorta uma frase, um terceiro transforma tudo em meme e, em poucos minutos, uma multidão já decidiu quem é o vilão e quem é o salvador da pátria. Em grupos de WhatsApp, famílias inteiras se dividem porque alguém encaminhou uma notícia sem verificar. No Instagram e no X, cristãos que cantam os mesmos hinos no domingo se tratam como inimigos durante a semana. O problema não é apenas político; é espiritual.

O cristão não é chamado a ser pessoa sem opinião. A Bíblia não nos transforma em gente neutra diante do bem e do mal; há temas sobre os quais o crente deve pensar, falar e agir com convicção. O problema começa quando a convicção deixa de ser serva da verdade e se torna combustível do orgulho. Quando isso acontece, já não queremos esclarecer, queremos derrotar; já não desejamos persuadir, queremos humilhar. Deixamos de enxergar o outro como pessoa criada à imagem de Deus e passamos a vê-lo como representante de uma ideologia que odiamos. Mas Cristo não nos chamou para sermos capangas de causas; chamou-nos para sermos embaixadores da reconciliação (2Co 5.20).

Nas redes, o sarcasmo virou prova de inteligência. Compartilha-se o vídeo que ridiculariza o "outro lado" e respira-se orgulho moral. O algoritmo recompensa essa postura, porque indignação gera engajamento: quanto mais agressivo o conteúdo, mais comentários; quanto mais humilhante a montagem, mais compartilhamentos. A teologia bíblica nos lembra uma verdade desconfortável: a depravação total não ficou no passado; ela migra para os smartphones e treina a alma para reagir antes de pensar, falar antes de ouvir e atacar antes de amar.

O evangelho segue na direção oposta. Cristo ensina que não basta amar quem nos ama; isso qualquer pecador consegue fazer. A marca do discípulo aparece quando ele trata com mansidão quem o provoca, responde com verdade sem perder a caridade e se recusa a pecar, mesmo tendo razão em determinado ponto. É possível defender uma causa justa com espírito injusto; estar certo no conteúdo e errado na postura; denunciar o erro alheio enquanto nutrimos, dentro de nós, a soberba, a ira e o desprezo. Calvino, nas Institutas, lembra que negar a si mesmo é consagrar todo o nosso ser, inclusive os polegares que tocam a tela, ao serviço de Deus e ao bem do próximo.

Um exemplo comum: o cristão que publica "Deus acima de tudo" e, logo em seguida, compartilha ofensas, boatos e acusações não verificadas. Há aí uma incoerência grave. Deus não está acima de tudo quando a minha raiva está prevalecendo sobre a verdade; Deus não está acima de tudo quando meu partido, meu influenciador preferido ou minha bolha ideológica determinam como devo tratar o próximo. A fidelidade cristã exige que submetamos ao senhorio de Cristo não apenas as nossas ideias, mas também os nossos afetos, as nossas palavras, os nossos cliques e os nossos compartilhamentos. É importante ressaltar que tal prática não se limita apenas ao campo político, mas a todas as vezes em que utilizamos nossas redes sociais para divulgar fatos inverídicos sobre outras pessoas.

Amar quando é árduo não significa concordar com tudo. Não significa chamar mentira de verdade, pecado de virtude ou injustiça de opinião respeitável. Amar é buscar, diante de Deus, o bem do outro. Às vezes isso incluirá confrontar; às vezes exigirá silêncio; às vezes pedirá paciência para ouvir alguém confuso, ferido ou enganado. O amor cristão não é sentimentalismo fraco; é obediência robusta. Ele nasce da consciência de que nós mesmos fomos amados por Cristo quando éramos inimigos de Deus (Rm 5.8,10). Quem recebeu tamanha misericórdia não tem o direito de tratar o próximo como lixo ideológico.

Tim Keller costumava dizer que a idolatria é pegar algo bom e transformá-lo em ultimato. A política é boa; como ultimato, vira deusa devoradora. O mundo reconhecerá que somos discípulos de Jesus não pela ferocidade dos nossos argumentos, mas pelo modo como amamos, inclusive nos pontos em que divergimos (Jo 13.35). Que a graça que nos alcançou nos ensine, também nas redes e na política, a praticar o amor nas diferenças: com convicção firme, língua mansa e coração quebrantado.

Rev. Liberato Pereira dos Santos  (Adaptado)

Postar um comentário