Salmo 143:1-12
Ao longo do Salmo 143, Davi tece uma
rede de súplicas que revelam três núcleos centrais de desejo. Não são desejos
isolados; são camadas que se aprofundam progressivamente, da superfície do
pedido à essência da alma.
O Desejo Geral de Ser Ouvido (vv. 1, 7)
é o primeiro núcleo de desejo que Davi expressa no Salmo. 1, 7) — Davi abre o
Salmo pedindo que Deus ouça e responda às suas súplicas. "Ó Senhor, ouve a
minha oração, dá ouvidos às minhas súplicas." No verso 7, ele reitera:
"Responde-me depressa, ó Senhor." Há aqui uma consciência radical: se
a face de Deus estiver encoberta, todas as demais petições serão em vão. Antes
de pedir qualquer coisa, Davi pede que Deus simplesmente escute. É o pressuposto
de toda oração autêntica; não existem palavras que cheguem ao céu se os ouvidos
divinos estiverem fechados.
O desejo por santidade e vida espiritual
(vv. 8, 10) - A segunda categoria de pedidos revela o coração de Davi em sua
profundidade. Ele não se contenta com livramento; ele quer transformação.
"Faze-me saber o caminho que devo seguir, pois a ti elevo a minha
alma" (v. 8). "Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu
Deus" (v. 10).
Davi pede para ser ensinado, guiado,
direcionado. Ele não busca apenas bênçãos; busca um caminho plano, uma vida
alinhada à vontade divina. Aqui está a grande lição para a oração cristã:
sempre que orarmos por bênçãos materiais ou físicas, devemos incluir orações
fervorosas por nossa própria transformação moral e espiritual. A vida terrena
não é um fim em si mesma, mas um meio de glorificar a Deus.
O desejo por segurança e proteção (vv.
Os versículos 2, 9, 11 e 12 abordam a terceira categoria, que envolve
livramento. Davi clama por proteção contra inimigos reais e forças espirituais
da maldade. "Livra-me dos meus inimigos, ó Senhor" (v. 9). "Por
tua justiça, tira a minha alma da angústia" (v. 11). Os inimigos de Davi
eram tanto humanos quanto espirituais. Ele não os divide; ambos ameaçam sua
vida e sua alma. É a mesma estrutura que Cristo ensina no Pai Nosso:
"Livra-nos do mal", uma petição que abrange tanto o mal concreto
quanto o mal metafísico. Mas há um pedido singular no verso 2 que merece
atenção especial: "E não entres em juízo com o teu servo, porque à tua
vista não há justo nenhum vivente." Davi clama para não entrar em juízo
com Deus, pois sabe que homem algum é justo diante d'Ele. Este é o grito mais
honesto de todo o Salmo: antes de pedir livramento dos inimigos, Davi implora o
mesmo sobre a própria justiça divina.
Como Davi propunha obter o que desejava?
— A resposta é desarmante em sua simplicidade: Davi propõe obter todas essas
bênçãos pela oração. Sendo um rei poderoso, forte e sábio. Um homem com
exército, riqueza e autoridade, ele não hesitou em assumir a posição de um
mendigo diante de Deus. Ele não mobilizou tropas antes de mobilizar lágrimas.
Não consultou aliados antes de consultar o Altíssimo. A oração foi sua primeira
estratégia, não sua última alternativa. O verso 2 revela o cerne da estratégia
de Davi: a única fuga do juízo de Deus é correr para a misericórdia de Deus. Em
vez de fugir de Deus como Adão no Éden, Davi foge para os braços do Pai. Não há
terceira via. Ou o homem enfrenta Deus como juiz, ou o encontra como pai. Davi
escolhe este último, e essa escolha redefine todo o Salmo.
Como Davi argumentou com Deus? — Talvez
a parte mais surpreendente do Salmo 143 seja a forma como Davi argumenta. Ele
não apela para suas próprias virtudes, não menciona seus méritos, não barganha
com Deus. Em vez disso, ele apela para a fidelidade e justiça de Deus (vv. 1,
11). "Ó Senhor, ouve a minha oração… na tua fidelidade responde-me, e na
tua justiça." Como a justiça de Deus é o Seu compromisso inabalável de
honrar o Seu próprio Nome, Davi desenvolve três eixos de argumentação:
Argumento do próprio nome e caráter de
Deus (vv. 1, 11-12) - Davi apela para o que Deus é, não para o que Davi merece.
Se Deus é fiel e justo, então Deus agirá com justiça e fidelidade para defender
a glória do Seu próprio Nome. O argumento é ousado: "Senhor, age por causa
do Teu Nome, não por causa do meu." Davi sabe que sua causa é fraca, mas o
Nome de Deus é invencível.
Argumento
da sua situação desesperadora (vv. 3-4, 7) - Davi expõe seu estado abatido:
"O inimigo persegue a minha alma… meu coração está pasmo e desmaiado"
(vv. 3-4). Ele não esconde sua fraqueza; ele a apresenta como razão para Deus
agir. "Responde-me depressa, ó Senhor, o meu espírito desfalece" (v.
7). A descrição da própria miséria é, paradoxalmente, um argumento teológico:
Deus não abandona os desamparados, pois isso seria contrário ao Seu caráter.
Argumento da sua confiança e fé em Deus
(vv. 8-10, 12) - Davi afirma repetidamente: "Em ti confio" (v. 8),
"A ti elevo a minha alma" (v. 8), "Em ti me refugio" (v.
9), "Tu és o meu Deus" (v. 10). Cada uma dessas declarações é um
argumento. Não é presunção; é a lógica da fé.
O elo crucial é este: se Davi deposita
toda a sua esperança no Nome de Deus, a própria honra divina está em jogo no
seu livramento. Seria uma mancha na glória do Nome de Deus se aquele que Nele
confia fosse destruído. Davi não diz "livra-me porque sou bom", mas
"livra-me porque confio em Ti, e Tu não podes falhar àqueles que confiam
em Ti". É o argumento que Moisés usou no deserto: "Se matares este
povo, as nações dirão: O Senhor não pôde levar este povo à terra que prometeu"
(Números 14:15-16). A honra de Deus é o argumento supremo da oração reformada.
O Salmo 143 nos ensina que orar é
desejar, buscar e argumentar — não com a nossa justiça, mas com a fidelidade de
Deus. Davi, rei e mendigo ao mesmo tempo, nos mostra que a oração não é o
último recurso dos desesperados, mas o primeiro movimento dos que conhecem a
Deus.
Que aprendamos com ele: a correr para a
misericórdia antes de temer o juízo; a buscar santidade antes de buscar
conforto; e a apelar sempre ao Nome de Deus antes de ao nosso próprio nome.
Porque, no fim, a oração que Deus atende não é a que sai dos lábios mais
eloquentes, mas a que sai das almas mais sinceras — almas que ousam dizer:
"Em ti, Senhor, me refugio."
Rev. Liberato Pereira dos Santos

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