Marcos 1:32–35
Uma das coisas mais difíceis na vida
religiosa é manter o verdadeiro equilíbrio entre serviço e devoção, entre
trabalho e oração. Exemplos de falha em preservar esse equilíbrio surgem
rapidamente à mente. Por um lado, há o monge que passa os dias em sua cela de
clausura, tendo sacrificado o serviço em prol da devoção; a sua é uma vida
desequilibrada em uma direção. Por outro lado, há o homem tão ocupado com suas
múltiplas atividades e obras filantrópicas que não tem tempo para orar; a sua é
uma vida desequilibrada na direção oposta.
Nesse sentido, as palavras de John Stott
ressoam com precisão: "Fundamental a toda liderança e ministério cristão é
uma humilde relação pessoal com o Senhor Jesus Cristo, devoção a Ele expressa
em oração diária, e amor a Ele expresso em obediência diária." (Tim
Chester, Stott on the Christian Life). Devoção sem serviço é estéril;
serviço sem devoção é insustentável.
Mas que vida maravilhosamente
equilibrada o texto supracitado revela! Os versículos 32, 33 e 34 nos mostram
Cristo em meio às Suas atividades; o versículo 35 O mostra em meio à Sua
devoção. À noite, Ele está ocupado com a multidão; de manhã, antes da aurora,
Ele está a sós com Deus. A piedade de Cristo resultava em serviço prático. Seu
serviço prático era nutrido e sustentado por Sua piedade. Na vida de nosso
Senhor, o serviço e a comunhão, o trabalho e a oração, cada um tinha o seu
devido lugar. A Sua foi uma vida perfeitamente equilibrada.
Aqui temos, para começar, um retrato de
Cristo em meio às Suas atividades. Que sábado foi aquele na história de Cristo!
Quão repleto de trabalho! Primeiramente, Ele pregou na sinagoga; e jamais
esqueçamos que a própria vida de Cristo estava presente em cada sermão que Ele
pregou. Depois, Ele expulsou o espírito maligno do endemoninhado. Em seguida,
após deixar a sinagoga, houve mais um apelo à Sua compaixão, e Ele curou a
sogra de Simão. E que nunca nos esqueçamos de que o que é verdade sobre os
sermões de Cristo também o é sobre os Seus milagres: eles exigiam um custo.
Poder, diz-nos um dos evangelistas, emanava d'Ele (Lucas 8:46). Cada ato de
cura consumia parte de Sua vitalidade. Custava-Lhe vida restaurar a vida aos
outros.
Ora,
sendo assim, Ele certamente estava um Cristo exausto naquela noite de sábado. O
dia Lhe exigira muito em termos de desejo, compaixão e empatia, e Ele poderia
legitimamente reivindicar o merecido descanso. Mas não lemos sobre descanso, e
sim sobre atividades novas e custosas. "À tarde, ao pôr do sol,
trouxeram-Lhe todos os enfermos e os endemoninhados. E toda a cidade estava
reunida à porta" (vers. 32, 33).
Toda a cidade à porta e, lá dentro, um
Cristo exausto! Contudo, Ele não faz menção ao cansaço. Saindo da casa de
Simão, Ele vai ao encontro daquela multidão aflita, levando consigo cura e
bênção. Que atividade incansável! Cristo doou-Se inteiramente ao serviço dos
homens. Ele vivia sob a pressão de uma grande urgência. "É necessário que
façamos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando
ninguém pode trabalhar" (João 9:4).
E, lado a lado com esse retrato de
Cristo em meio às Suas atividades, temos um retrato de Cristo em meio à Sua
devoção. "De manhã, muito cedo, ainda escuro, levantou-Se, saiu e foi para
um lugar deserto; e ali orava" (vers. 35). Existe uma ligação
estreitíssima e íntima entre um retrato e o outro.
Num estaleiro de engenharia, vê-se
inúmeras máquinas ocupadas em diversos tipos de trabalho, a maioria delas
produzindo um ruído considerável no processo. Mas há, em algum lugar daquele
complexo, uma sala quase silenciosa, onde um grande motor funciona de maneira
suave e constante. "Esta", diria o engenheiro, "é a sala de
força." Naquela sala silenciosa, descobre-se o segredo de toda aquela
atividade nas oficinas: sem o motor, as máquinas parariam; sem a força, o
trabalho cessaria. Assim é na vida de nosso Senhor. Nos versículos 32 a 34,
Marcos nos mostra as muitas atividades de Cristo: pregando, curando, expulsando
demônios, servindo. Mas no versículo 35, ele nos conduz à "sala de
força": "De manhã, muito cedo, ainda escuro, levantou-Se, saiu e foi
para um lugar deserto; e ali orava." Por trás de toda aquela atividade
incansável na sinagoga e nas ruas, havia uma vida de oração secreta. Naquela
comunhão silenciosa com o Pai, Jesus encontrava a força que movia todo o Seu
ministério. Sem a sala de força, nenhuma máquina funciona; sem a oração, nenhum
ministério subsiste. Em comunhão com Seu Pai, Jesus se revigorava e se renovava
para continuar Sua labuta entre os homens. "Muito antes de amanhecer"
— Jesus reservava tempo para a oração! Ele o arrancava das horas de sono.
Que lição prática sobre a necessidade
indispensável da oração! Reconhecemos a obrigação de servir nos dias de hoje e,
consequentemente, tornamo-nos muito ocupados. Mas será que estamos
negligenciando a "sala de força"? Precisamos manter o equilíbrio.
Jamais devemos ficar ocupados demais para orar. Como bem expressou Tim Keller:
"Orar é aceitar que somos, e sempre seremos, inteiramente dependentes de
Deus para tudo." (Prayer: Experiencing Awe and Intimacy with God).
A oração não é um luxo para os que têm tempo livre; é reconhecer de que sem
Deus, nada podemos.
Rev. Liberato Pereira dos Santos

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