Mateus 5.1-12
Poucos trechos das Escrituras merecem
tanta atenção quanto os três capítulos que inauguram o que chamamos de Sermão
da Montanha. Ali fala o nosso supremo Pastor, o Cabeça da igreja, Aquele que
falava como nunca homem falou e por cujas palavras seremos julgados no último
dia. Se desejamos saber que tipo de pessoa o crente deve ser, que caráter
cristão devemos almejar e que hábitos mentais cultivar, precisamos meditar com
frequência nas bem-aventuranças — as oito pedras fundamentais do Reino.
A porta de entrada é a humildade. Jesus
chama de bem-aventurados os pobres de espírito: os que estão profundamente
convictos da própria pecaminosidade diante de Deus, que não se julgam sábios
aos próprios olhos nem se fantaziam de que nada precisam. No alfabeto do
cristianismo, a humildade é a primeira letra. Devemos começar bem por baixo se
quisermos atingir grandes alturas espirituais.
Segue-se o choro. Bem-aventurados os que
se entristecem por causa do pecado, os que se lamentam diariamente por suas
falhas e se preocupam mais com o pecado do que com qualquer outra coisa nesta
terra. O sacrifício agradável a Deus é o espírito quebrantado (Sl 51.17). E a
promessa é segura: um dia não derramarão mais lágrimas, "porque serão
consolados".
O terceiro traço é a mansidão. Os mansos
têm espírito paciente e satisfeito; dispõem-se a ter pouca honra neste mundo,
suportam injustiças sem guardar ressentimentos e, como Lázaro na parábola,
contentam-se em esperar as boas coisas que Deus tem reservadas. A longo prazo,
os mansos jamais são os perdedores: chegará o dia em que reinarão sobre a
terra.
A eles se soma a fome e sede de justiça.
O cidadão do Reino anela, acima de tudo, ajustar-se à mente do Senhor. Não
busca primariamente riqueza, poder ou erudição, mas santidade. E um dia terá o
suficiente do que deseja: acordará revestido à semelhança de Deus e será
saciado (Sl 17.15).
A
misericórdia marca o caráter do cidadão do Reino. Ele se mostra compassivo para
com seus semelhantes, tem compaixão de quantos sofrem, seja pelo pecado ou por
adversidades, e se esforça ternamente
por aliviar tais sofrimentos, praticando o bem. Tanto nesta vida quanto na
vindoura, terá uma rica colheita.
Quinto, a pureza de coração. O
bem-aventurado não se contenta com conduta externa correta nem com mera
exibição de religiosidade; esforça-se por manter o coração e a consciência
isentos de ofensa, servindo a Deus com o homem interior. "O homem vê o exterior,
porém o Senhor, o coração" (1 Sm 16.7). Quanto mais a mente se volta para
as coisas espirituais, maior a comunhão com Deus.
Sexto, a vocação de pacificador. O
cidadão do Reino usa sua influência pessoal para promover a paz e o amor, em
público e em particular, ensinando aquele evangelho cujo cumprimento da lei é o
amor (Rm 13.10). Ao fazê-lo, realiza a mesma obra que o Filho de Deus iniciou
em sua primeira vinda e que consumará em sua segunda.
Por fim, a perseguição por causa da
justiça. Bem-aventurados os zombados, desprezados e abusados apenas porque
vivem como verdadeiros crentes. Esses bebem do mesmo cálice de que o Mestre
bebeu. Eles o confessam perante os homens, e Ele os confessará perante o Pai e
os anjos no último dia. "É grande o vosso galardão nos céus."
Três lições brotam dessas sete verdades.
Primeira: os princípios de Cristo são inteiramente contrários aos deste mundo.
O mundo despreza exatamente as virtudes que Jesus exaltou, enquanto cultiva
orgulho, mundanismo, formalismo, egoísmo e falta de amor, tudo o que o Senhor
condenou. Segunda: quão tristemente diferente da vida de muitos professos
cristãos é o ensino do Mestre. Há razões para temer que muitos que frequentam
os cultos sejam ignorantes do que o Novo Testamento contém. Terceira, e acima
de tudo: quão santos e espirituais todos os crentes deveriam ser. O
cristianismo é eminentemente uma religião prática. A sã doutrina é a raiz e o
fundamento, mas o seu fluxo deve ser sempre uma vida santa.
Marquemos bem essas sete pedras
fundamentais. Nelas está a sabedoria de descrever o verdadeiro cidadão do Reino,
e o alvo que nenhum crente deveria
rebaixar.
Rev. Liberato Pereira dos Santos

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