Vivemos dias
desafiadores para a Igreja de Cristo. O cenário contemporâneo é marcado por
visível evasão e descrédito institucional, enquanto o relativismo cultural, o
liberalismo teológico e o secularismo investem agressivamente contra a sã
doutrina. O avanço de cosmovisões contrárias, como o islamismo militante, e a
proliferação de falsos mestres cumprem com precisão os alertas apostólicos
registrados pelo apóstolo Paulo: "o Espírito afirma expressamente que,
nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé" (1Tm 4.1), impulsionados
pela recusa à sã doutrina em busca de fábulas convenientes (2Tm 4.3). Em
resposta a essa crise de identidade e solidez, a providência divina preservou
para a Igreja um instrumento de inestimável valor pedagógico e redentivo: a Escola
Dominical.
O movimento que hoje
abençoa milhões teve início em circunstâncias improváveis. Em 27 de julho de
1780, em Gloucester, Inglaterra, o jornalista episcopal Robert Raikes reuniu
crianças marginalizadas e analfabetas para instruí-las nas primeiras letras e nas
Sagradas Escrituras. Ao publicar formalmente os frutos de seu labor em 3 de
novembro de 1783 — data adotada como marco de sua fundação —, Raikes
estabeleceu um paradigma perpétuo. Como bem ponderou o pastor Antonio Gilberto:
"Mal sabia Raikes que estava lançando os fundamentos de uma obra
espiritual que atravessaria os séculos e abarcaria o globo, chegando até nós, a
ponto de ter hoje dezenas de milhões de alunos e professores, sendo a maior e
mais poderosa agência de ensino da Palavra de Deus de que a Igreja dispõe".
Em solo brasileiro, essa chama foi acesa em 19 de agosto de 1855, na cidade de
Petrópolis, pelos missionários escoceses Robert e Sara Kalley, em uma humilde
classe inicial composta por apenas cinco crianças.
A Escola Dominical
firma-se como a agência primaz de ensino do Reino de Deus e o departamento mais
estratégico da igreja local, pois evangeliza enquanto ensina, cumprindo com
exatidão o mandato da Grande Comissão (Mt 28.19-20). Sendo a única agência de educação
popular da comunidade cristã com caráter devocional, sistemático e pedagógico,
a EBD tem a Bíblia Sagrada como seu inegociável livro-texto. Como expressou o
pastor Hernandes Dias Lopes: "É inspirada por Deus e escrita por homens
santos; ela é nascida no céu, amada na terra e perseguida pelo inferno. A
Bíblia é o livro dos livros..." (2Tm 3.16). Nessa forja da verdade
divina, os santos são devidamente aperfeiçoados para toda boa obra (2 Tm 3.17).
Não surpreende que a célebre pesquisa conduzida pelo Dr. C. H. Benson tenha
constatado que 75% dos membros, 85% dos obreiros e 95% dos pastores e
missionários foram, em algum tempo, alunos assíduos da Escola Dominical,
alcançando seus quatro grandes propósitos: ganhar almas, educar na Palavra,
desenvolver o caráter cristão e capacitar obreiros dedicados.
A centralidade do
ensino sistemático não constitui inovação moderna, mas a própria espinha dorsal
da história da redenção. Ela ecoa desde o mandamento mosaico no Shemá (Dt 6.7),
passando pela reforma pedagógica do rei Josafá (2Cr 17.7-9) e pela erudição sacerdotal
de Esdras (Ed 7.6). No Novo Testamento, Cristo assombrou as multidões por sua
autoridade didática (Mt 7.29), prática continuada pelos apóstolos até os
confins do império (At 28.31). O Espírito concede dons específicos de
magistério (Rm 12.7; Ef 4.11-16) para que o Corpo alcance a estatura de varão
perfeito. Dos Pais da Igreja, como Justino, o Mártir, Clemente de Alexandria,
Orígenes, Gregório Nazianzeno e Agostinho, até as luzes da Escolástica com
Tomás de Aquino e os gigantes da Reforma Protestante, como Martinho Lutero,
Ulrico Zuínglio e João Calvino, uma verdade permanece inalterada: nunca haverá
crentes maduros nem igrejas fortes sem uma instrução bíblica consistente e
profunda.
Para que a ED cumpra
plenamente sua vocação, três princípios pedagógicos sagrados devem ser
preservados. Primeiro, o ensino bíblico jamais se reduz ao acúmulo cognitivo;
ele transmite vida mediante o da'at hebraico (Os 4.6), aquele
conhecimento que brota da comunhão experiencial íntima com o Senhor, exigindo
que o professor viva com integridade o que prega. Segundo, o Espírito Santo é o
Mestre supremo que capacita os mestres humanos (Jo 14.26), demandando dos
educadores uma vida contínua de oração, unção e temor. Terceiro, o eixo
inegociável de toda lição é o evangelho da graça de Cristo Jesus, proclamado
com ousadia apologética e ternura pastoral (At 5.42; 1Pe 3.15).
Irmãos e líderes do
rebanho do Senhor, despertemos para o valor eterno da Escola Bíblica Dominical.
Investir em seus professores, estruturar suas classes, priorizar o seu horário
no Dia do Senhor e matricular nossas famílias nessa nobre instituição não é
mero ativismo dominical, mas uma imperiosa questão de sobrevivência e
fidelidade teológica. Que a Igreja retorne com fervor ao estudo metódico das
Escrituras, alicerçando as novas gerações sobre a Rocha inabalável dos séculos.
Rev. Liberato Pereira dos Santos

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